segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Enganos



Meus planos, meu mundo, meus vícios. Que faço meu e desejo. Minhas crianças, minhas memórias e lembranças. Meus discos, suas fotos, meus tão indesejáveis vícios. Meus poucos, meus anos, incontroláveis enganos. Sua dança, meu corpo, meus olhos, lembranças. Minhas fotos, suas cartas, minhas juras de amor. Minhas coisas, meus planos, meus tão inegáveis enganos.

Me pegue devagar e me tome pra você. Dilacere-me em pedaços e me guarde num lugar em que você não veja. Me afunde em meu vazio perplexo de suas incertezas.

Meus desejos, meus anos, meus tão fudidos planos. Seu mundo, meus olhos, meus vários enganos. Meus discos, seus vícios, minha forma correta de amar. Meu respeito, seus erros, seu medo de amar. Meus desejos, seu corpo, meus tão incontroláveis anseios. Meus muitos, meus erros, meus tão plausíveis acertos. Seus anos, meus planos, nossos tão incontroláveis enganos.

Me aperte e me sufoque. Tire-me a vida, me faça amar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Enfim

Eu sai, desci pelas escadas e esbarrei numa lixeira ao passar pela porta. Do lado de fora eu observei. Os carros passavam, o vento sacudia as árvores, crianças sorriam e passeavam de mãos dadas com seus pais. Olhei pra cima e vi um sol mais do que brilhante e amarelo, nuvens brancas e macias que no momento era cortadas por um avião. Respirei fundo, fechei os olhos. Abri.

É...a vida continua, o mundo ainda está rodando.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Saudades

Quatro ou mais toques. Caixa postal. Droga, eu queria falar com você. Eu sei que te vi há algumas horas atrás, mas me bateu uma puta saudade. Era mais pra ouvir a sua voz, nesse timbre que me acalma e me faz pensar no futuro. Click, telefone fechado. Cara de broa, tristeza. Não tristeza de quem está à milhas de distância e sente saudades. Tristeza de quem viu a pouco, mas não sentiu ser o suficiente. Grude? Nenhum um pouco. Amor mesmo, vontade de ver, ouvir, sentir.

Quatro ou mais toques. Já sei, já sei. Não me adianta em nada gravar esta mensagem, não é a minha voz que eu quero ouvir. Pensar, refletir, deixar estar. Coisa mais esquisita, esse sufoco momentâneo que parece que não vou te ver nunca mais. Grude? Não porra! É só... Saudade de quem viu a pouco e ainda não se deu por satisfeito, ainda quer mais e mais. Tamborilar os dedos, esperar, ansiar, ver o tempo... não passar e sentir-se por pouco abater.

Send + End. Click, celular fechado. Já devo ter ligado muito, é melhor deixar pra lá, esquecer, fingir não ver, adormecer.



quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Réplica


Eu sinto uma paz por te deixar, acho que toda essa parafernália desgastante e caótica me tirou a vontade de ver o lado bom de tudo. Não vou cuspir no prato, nem dizer que não aprendi. Você me deu importância, apostou em mim. Eu honrei tudo o que disse e por muito tempo vesti a camisa, perdi o sono pensando numa forma de solucionar todos aqueles lastimáveis problemas. Cansei. Enjoei de tudo, da sua cara, do seu discurso politicamente correto, de você tentar me convencer ser a melhor pessoa do mundo, de ouvir você conspirando contra todos por baixo dos panos. Cansei de você.

Por tempos tentei amenizar e tentar imaginar que todos eram como você, e que pra onde quer que eu corresse isso iria acontecer. Mas não dá mais, é sério. Puta que pariu que vontade que eu tenho de te chutar o traseiro, cuspir na sua cara e te chamar de cadela. Mas quero manter a educação, os bons modos, o respeito. Vou jogar no seu jogo, te ouvir calado você tentar me fazer acreditar que estou errado, vou afirmar positivo com a cabeça. Te destruindo, decapitando, torturando em pensamento. Eu realmente estou de saco cheio de você.

Hoje eu parto de malas prontas. Quero deixar essas lástimas, angustias e indignações num poço escuro, amontoar de areia em cima. Apagar, esquecer definitivamente. Rumar num novo caminho. Não te desejo o mal, nem o bem. Que você faça sua sorte, e seja feliz se merecer. Até logo, tchau, adeus.

sábado, 3 de novembro de 2007

Venha

Amor. Venha, mas não faça o que me despedaça, e me amarga a boca. Eu bebi uma quantia sagrada de emoção, no seu cálice da vida. Amor, vem e me abraça, me enlaça, me emociona. Eu vivi tempos perdidos e sem ação, porém aprendi. Você é como um impresso colorido no meu mundo preto e branco. Minha, só minha! Paixão. Me aquece a alma, me ensina as coisas do mundo. Tenta, mas não me domina. Sonha comigo, brinca comigo. Roda gigante, maçãs do amor, mãos dadas num parque de diversão. Vem amor, me fascina, mulher madura com alegria de menina. Me faz ser teu, como você é minha.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Irônico


Eu fui melhor que você. Querendo ou não eu sei que você tem uma raiva tremenda guardada em algum lugar do seu peito, ou tem uma foto minha colada na parede que você joga dardos todo dia de manhã antes de ir ao banheiro lavar o rosto. Eu fui melhor que você, assuma. Eu agi sorrateiro e na hora certa. Você é metódico demais, eu sou frio e calculista, planejo todas as minhas ações, mas sei ligar o foda-se e não dar tanta importância. Os seus anos de experiência e seu jeito padronizado de pensar no mundo não foram páreos para minha forma não convencional de viver a vida.

Pois é, essa minha cara de menino perdido, idiota, e esse meu jeito atrapalhado. Você não esperava que eu fosse ganhar. Assuma, você perdeu pra mim. Perdeu um prêmio que eu desfruto, saboreio. Eu vejo no seu olhar o quanto você queria estar no meu lugar. O seu discurso barato, perceptível, quase que tirado do wikipedia ou de livros de romance tipo Sabrina, não chegaram aos pés dos meus comentários idiotas, das minhas investidas certeiras, do meu jeito descontrolado, que pra você não passavam de atitudes e pensamentos infantis.

Chupe o dedo. Morra de inveja, deseje entrar no meu corpo. Observe minhas ações, aprenda comigo, eu não sou um ser abduzido de outro planeta e jogado aqui. Eu sou homem. Eu sei ser homem, sei falar a coisa certa na hora certa. Era pra você saber também. Moço letrado, pós-graduado, poliglota. Te faltou prática, banhos de chuva, colar na prova, jogar bola e estourar o tampão do dedo, ver desenho animado, ficar com calos no dedo polegar de tanto jogar videogame. Te faltaram futilidades necessárias, malandragem. Você é certinho demais. Eu não forço ser o que não sou. Assuma. Você perdeu pra mim, e nesse jogo você não pode resetar, reiniciar, começar de novo.







segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Tragédia


Eu a esperava como de costume, sentado na cadeira de madeira com os pés apoiados na base da mesa. Goles em um uísque barato e alguns tragos de cigarros. Devagar, quase que imperceptível eu deslizava meu dedo indicador na borda do copo e prestava atenção nas conversas alheias.

O lugar era meio que um inferninho, luz fraca e amarelada, cadeiras e mesas de madeira estrategicamente posicionadas a sobrar um pequeno espaço, onde os garçons se esquivam pra passar. Ao fundo, copos mal lavados e amontoados dentro de uma fôrma de bolo que agora servia de escorredor. Garrafas de bebidas, muitas garrafas de bebidas faziam a decoração da parede de fundo.

O relógio tornou-se meu fiel companheiro desde que o casal de lésbicas havia ido embora da mesa ao lado, deixando-me extremamente curioso com a possível descoberta de uma nova forma de dar prazer à companheira. Passaram-se cerca de trinta ou quarenta minutos. O uísque desceu ao fundo e retornou ao topo novamente graças à agilidade de um dos garçons.

Eu contava carros pra ver se o tempo passava, foi divertido no começo, já estava no número cinqüenta e alguma coisa, quando um babaca parou na minha frente e eu perdi as contas, minha vontade era de matar aquele idiota, como que em apenas alguns segundos ele estraga toda minha contagem. Dois ou três cigarros apagados colocados perfeitamente na posição vertical, formando colunas. A fumaça dançava diante dos meus olhos, e depois de alguns goles o efeito que isso fazia era no mínimo psicodélico.

Uma ou duas horas depois. O dono do bar começa a descer as portas e os garçons a erguer as cadeiras. Apenas duas mesas ocupadas, eu sou o único não acompanhado. Ela está atrasada, eu já havia deduzido isso muito tempo atrás, mas estava insistente em esperar. Os carros já não passavam com tanta freqüência, já não havia muita coisa a fazer. Paguei algo pra beber pro morador de rua em troca de dez minutos de conversa. As demais mesas estavam todas com cadeiras penduradas de cabeça para baixo.

Um carro encosta do outro lado da rua. Parece ser o dela. Meu Deus, será que ela chegou ? Eu olho para um dos quadros da parede e fixo meu rosto naquela direção. Não quero que pareça que eu estava ansioso ou louco pra ela chegar. Viro o rosto em direção à rua e o coloco no lugar quase que no mesmo instante. Tinha alguém ligando o alarme, mas não deu pra ver quem era. Foda-se! Vou olhar, e ainda vou discutir com ela, isso mesmo, vou gritar e falar que isso é uma tremenda palhaçada. Onde já se viu, duas horas e meia de atraso. Sinto que alguém está chegando. Já não quero mais saber, eu estou puto da vida e vou rasgar o verbo agora. Uma sombra se projeta no chão, sinto uma mão tocar levemente no meu ombro apertando com firmeza antes de largar.

- Oi amor.
- Oi!
Ela me dirige um olhar profundo é a voz trêmula:
- Tenho que te contar uma coisa.
- Pode falar.
- É sobre sua mãe.
- O que tem a minha mãe? Fala.

Agora já não escutava nada com clareza, não conseguia enxergar direito, as poucas palavras que consegui distinguir entraram no meu ouvido numa rotação abaixo do normal.

- Ela não resistiu. Temos que ir.